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  • CarlaOliveira 15:23 on 13/09/2009 Permalink | Responder
    Tags: , História, ,   

    Esquisitice aguda 

    Esquisitice aguda: eis uma patologia que todos nós temos e que ninguém conseguiu ainda compreender. Trata-se de um fenómeno de desequilíbrio nervoso provocado pelo contacto com determinado objecto ou substância. Normalmente acontece em momentos inesperados que deixam o afectado com arrepios e os pêlos em franja enquanto os assistentes esboçam um olhar perplexo de simultânea incompreensão e gozo. De facto, esta patologia parece não constar ainda portfólio de doenças reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde, mas se constasse seria concerteza na secção de doenças do oculto ou do foro mental. Senão, vejamos…

    Imagem2

    Conheço uma pessoa que não suporta sequer pensar em umbigos. Os umbigos dão-lhe nojo e arrepios e, só de pensar em tocar num – o seu inclusive – perde as forças, fraqueja e fica com pele de galinha. Para essa pessoa, os umbigos são para andar tapados e quanto mais longe, melhor! Explicação?! Ainda não foi encontrada…

    Tenho outra amiga que se contorce toda quando ouve o barulho de uma unha a raspar em alguma coisa, particularmente se for com uma lima devido ao ruído rugoso e seco que provoca. Crrrr, crrrr, crrrr, crrrr, para cá, para lá, para cá, para lá.. e no entretanto ela já está a milhas de distância com os pêlos eriçados a contorcer-se em arrepios. Explicação?! … pois… …

    Mas o repertório continua. Agora vamos a mim, exemplo-mor da esquisitice aguda. Obviamente só de pensar já estou toda arrepiadinha, mas a verdade é que todas as substâncias que reúnam as características de áspero, seco e disperso me deixam completamente….. grrrrrrrr, sem forças. Algodão e esponja estão no topo da categoria, mas aquela substância que se usa para forro de casacos, pegas de cozinha e colchas também. Um dia pus a mão dentro de uma pega de cozinha que se tinha rompido no interior, pela costura, e as minhas unhas roçaram naquela fibra áspera do enchimento. Acho que deixei queimar o que estava no forno porque não consegui voltar à consciência a tempo de salvar o cozinhado…

    Tenho outra amiga que tem uma pancada ainda mais esquisita. Quando está a comer sopa fica sempre na expectativa de encontrar um pedaço de batata que não tenha sido passado. Assim que o encontra começa a bolsar, a regurgitar e não consegue comer absolutamente mais nada… Já lhe perguntei se lhe acontecia o mesmo com sopa não passada, aquela que tem pedacinhos de cenoura e hortaliças, mas não, é só mesmo com batata! Vá-se lá entender estes fenómenos…

    Entre os mais comuns, encontramos o girar de engenhos que fazem guinchos estridentes, como os bancos que se levantam por rosca ou o giz a raspar na ardósia. Eram sempre momentos de gritos quando na sala de aula o giz raspava ou alguém se lembrava de levantar o banco na sala de trabalhos manuais.

    Tanto quanto sei, ainda não há cura para a esquisitice aguda. Médicos especialistas, bruxas e xamans derbuçam-se sobre esta patologia desde há séculos, mas ainda nenhum encontrou a cura para este tipo de devaneio mental que atormenta milhares e milhares de pessoas. E vocês, também têm alguma uma esquisitice aguda?!

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    • Telma 15:46 on 13/09/2009 Permalink | Responder

      Eu tenho a mesma cena que tu Carlita, tal e qual, e é de facto a unica que tenho.

      • Raqul luz 18:56 on 30/09/2009 Permalink | Responder

        Então e o esferovite? É a pior coisa que existe!!!!

    • Zorze 17:01 on 21/10/2009 Permalink | Responder

      Muitas vezes ao olhar dos outros parecemos muito diferentes, mas no fundo somos todos iguais. Só com alguns gostos diferentes e umas “esquisitices”. É a vida em harmonia.
      EHHHH
      ZINHOS

  • CarlaOliveira 13:33 on 09/09/2009 Permalink | Responder
    Tags: , História, Metáfora   

    Os umbigos 

    Todos temos um e todos fazemos dele o centro de gravidade da nossa existência. Eu e o meu umbigo, conjugado em todos os tempos e de forma invariável: Tu e o teu umbigo. Ele/Ela e o seu umbigo. Nós e o nosso umbigo. Vós e o vosso umbigo. Eles/Elas e o seu umbigo.

    Parece que apesar da variedade de tempos, modos, sujeitos e formas verbais, tudo se resume ao mesmo substantivo: o umbigo. E um falso substantivo porque não significa a sua substância física mas a sua significação intangível… Algo tão simbolicamente carnal. Tão fisicamente emotivo… É por isto que quando falo no umbigo não me refiro necessariamente ao buraquinho voltado para dentro que temos ao fundo da barriga e onde se acumulam rugas, borbotos ou piercings. Refiro-me ao umbiguismo, ao remoinho da exisitência ao nosso “Eu” que nos transporta para dentro de nós e nos confina egoístamente aos nossos interesses.

    No fundo, no último reduto de todos os argmentos e motivações, tudo gira em torno dos umbigos de cada um. Porque ser umbiguista como o Narciso nos faz fortes contra as adversidades e protege a deblidade que está além do buraco enrugado voltado para dentro. Projecta uma força que queremos demonstrar ao ocultar uma fragilidade que queremos esconder, e assim cumpre o seu objectivo de manutenção da espécie.

    Parece cruel. Parece naturalista ou mesmo animalesco, mas assim se cumpre a vida neste Mundo de Umbigos onde todos são Bons Samaritanos, sim, mas da sua própria vontade e pela aniquilação da vontade do umbigo alheio.

     
    • Nuno 16:54 on 09/09/2009 Permalink | Responder

      É um mal geral, muita gente só olha por si e para si, sem se preocupar se magoa os outros. O umbiguismo retira-nos clareza de espírito e sensibilidade para perceber a posição de outrem.

  • CarlaOliveira 0:25 on 11/08/2009 Permalink | Responder
    Tags: , , História,   

    Estamos aqui. 

    Quando entrei na sala o Luís chorava lágrimas de avalanche. Tinha na mão o resto de um lenço amarrotado incapaz de conter uma lágrima mais que fosse. Olhei-o. Ele soluçava e tive medo que não conseguisse voltar a inspirar à medida que eu me aproximava e a emoção lhe subia pela angústia do peito.

    Agarrou-se a mim com a pele húmida e o rosto molhado. Sentia o seu corpo a estremecer numa dor tão contagiante que até a mim me fraquejaram as pernas. Abracei-o com força. Com a força com que se abraça um desespero e esperei que a dor lhe fluísse pelas lágrimas abaixo. Senti as suas mãos suadas e rijas que se apertavam contra as minhas costas como quem não está a medir o momento. Esperei que acalmasse mas o abraço passou o tempo normal que dura um abraço. O Luís não conseguia falar e não insisti que ele o fizesse. Já esperava o que me ele ia dizer.

    “Ela morreu. Ela morreu! Não acredito que ela morreu…” dizia, enquanto baixava o tom e se deixava descair pelas pernas abaixo até se enrolar em posição de feto, no chão. Sentei-me com ele e apertei-o contra o meu peito enquanto tentava manter a postura de uma viga de ferro. Eu sabia que este dia ia chegar. E o Luís também. Mas não há nada a fazer, não há preparação possível para a morte. Vem e cumpre a sua missão.

    Desejei que ninguém entrasse pelo escritório naquele momento e dei graças por ter sido eu a primeira a chegar. Os clientes que esquecessem os telefonemas e os emails. Fui reprogramar as chamadas e a mensagem automática do Outlook. Pelo caminho trouxe um copo de água e peguei no casaco de qualquer maneira. Despejei as coisas dele para dentro da minha mala e arrastei-o dali para fora, comandando-o com o braço sobre os seus ombros.

    O dia não existiu durante o resto da semana. Tudo sucedeu em modo automático enquanto o Luís se ia despedindo aos poucos da tia que o havia criado naquela casa onde foram encontrá-la sem vida, naquela manhã. Agora, deitada sobre as suas costas dentro de um caixão aberto, Luís olhava-a para lá do tempo. Olhava-a persistentemente como se não houvesse mais ninguém naquela câmara, nem coroas, nem crisântemos, nem choro, lenços ou soluços. Tudo para além do rasto daquele olhar era uma névoa desbotada e incompreendida. Só Luís e a tia sabiam ler aquele momento com a cumplicidade de uma vida inteira a partilharem o mesmo caminho.

    Luís nasceu de uma gravidez tardia que acabou por levar a vida à sua mãe quando ele ainda era muito pequeno. O pai, revoltado com a perda, não foi capaz de aceitar Luís naquele momento e afastou-se. Era mecânico de navios e o desejo da fuga justificada pela circunstância da revolta fê-lo aceitar uma viagem a bordo por seis anos lá para os lados da Ásia Central. Sem mãe e com o pai longe, Luís acabou por ser criado pela irmã mais velha da mãe, sua tia, que por acaso do destino nunca tinha conseguido engravidar e tinha perdido o marido na guerra das colónias. Uma história complicada de vidas cruzadas que acabaram por se unir durante mais de 30 anos.

    Luís e a tia viveram e cresceram juntos. Ela era costureira e fazia rissóis para vender no café do senhor Alberto. Às vezes havia problemas pois nunca se sabia quantos homens se iam juntar em cada fim-de-semana no café para beber cerveja e comer a bucha. O stock acabava num instante. Luís, quando sabia que havia futebol ou que se aproximava uma final de damas no Sr. Alberto, avisava a tia para reforçar nas quantidades.

    Com o tempo, Luís acabou também por conhecer a casa da modista e as moradas das principais clientes da tia. Quando comprou a carrinha, era ele que fazia as entregas da tia e, no regresso, fazia as compras da casa pois a tia deixou de poder carregar peso nos braços. Com o tempo a relação foi crescendo. Luís já era um homem e 30 anos tinham passado enquanto os cabelos brancos da tia se multiplicavam e a sua coluna ia definhando.

    Assim passou uma vida, na amizade e na cumplicidade de uma relação destinada a fortalecer-se pela ausência de uma família tradicional. Aquela família eram dois, com laços tão apertados que a vida nunca seguiu de outra forma que não de um para o outro. A tia nunca procurou nem aceitou outro companheiro após o desgosto da carta dos serviços de informação do exército nacional.

    Luís acabou por entregar-se à tia com a alma e a devoção que se costuma partilhar com os pais e irmãos. Na ausência destes, a tia era a sua família e algo que fugisse a esse seu compromisso não havia nunca de resultar. Chegou a ter namoradas, mas sempre que se falava em irem viver juntos um problema qualquer acabava por aparecer repentinamente e Luís voltava sempre à casa e ao colo que o viram nascer.

    A tia envelheceu e havia já três meses que se queixava de dores nos ossos. Ouvia mal e tinha os olhos sempre em angústia por causa das cataratas que lhe tinham aparecido há uns anos e que a fizeram afastar-se da máquina de costura. Já estava velhinha e passava os dias no sofá, com uma mantinha sobre os joelhos partilhando a casa com o talk-show das manhãs na televisão. Três vezes por semana ia lá a casa uma empregada estrangeira que era massagista no seu país. Um amor de moça e adorava a pobre senhora. De vez em quando fazia-lhe um doce de leite, que era o mais fácil para engolir, e preparava-lhe uma cama com sacos de água quente para aliviar as dores nas costas. Com tal cuidado e ternura, Luís podia ficar descansado e passava os dias no escritório tranquilo entre telefonemas, emails e outras preocupações normais.

    Mas naquele dia, ainda antes de começar o expediente, houve um telefone que tocou. Era cedo e Luís tinha chegado há poucos minutos. Gostava de ir cedo para ter tempo de tomar um cafezinho e ler as notícias do jornal antes do lufa-lufa começar. Ao telefone era empregada que tinha chegado a casa da tia para a sua visita habitual. A tia estava sentada no sofá, inanimada, no mesmo onde Luís a havia deixado há poucos minutos atrás, antes de ter corrido para o trabalho. Antes de sair foi à cozinha e pegou numa carcaça com a mão. No corredor agarrou as chaves e o casaco. Foi à sala, ligou a televisão e abeirou-se do sofá. “Porta-te bem, tia! E vê se não foges com nenhum apresentador mais giro do que eu, tá?”. Ajeitou-lhe a manta e ela olhou-o pelo canto do olho, riu-se e beijou-o de volta. “Até logo, filho”.

    Quando deixámos o cemitério voltei a encontrar o olhar de Luís. Estava perdido entre a dor e as lágrimas. Na sofreguidão do que sentia, procurou a minha mão e apertou-ma com força. Andámos assim durante horas, sem uma palavra, um som, um gemido. Já cansados, sentámo-nos na relva e fechámos os olhos. Desceu o sol. Caiu a noite. Peguei-lhe pela mão e levei-o para minha casa. Sentámo-nos no sofá e fui buscar uma manta. Os seus dedos reviveram, apertando os meus com mais força. Luís ajeitou a manta e ficámos ali a olhar a imagem da televisão, inconscientes. Deixámo-nos dormitar até que ao longe, distante, ouvi o som de uma frase sussurrada. “Obrigado por estares aqui”.

     

    Posfácio. Bem sei que este episódio tem um final insípido e pouco novelesco. Provavelmente perguntaram “então e depois?…” Mas quantas vezes a nossa vida não é, também ela, repleta de episódios normais e com finais insípidos onde não queremos mais nada senão alguém do nosso lado quando sentimos que o mundo desabou sobre os nossos ombros sem pesar a medida do que conseguimos aguentar? Sem dó nem piedade, quando a dor chega, uma simples palavra, uma silenciosa companhia ou uma simples presença podem fazer a diferença entre o desespero do momento e o alento de um futuro. Sei que é pouco, mas as minhas palavras têm um destino e um desígnio. Por muito pouco que possamos fazer, “estar aqui” pode fazer a diferença.

     
    • joaninha 23:16 on 13/08/2009 Permalink | Responder

      pois… essa historia deixou-me com lagrimas nos olhos… sabes pq? “porque eu n estiva lá”… n deves perceber bem o que eu estou a falar mas como minha amiga que és, apesar de nos vermos pouco, há praticamente 18 anos sei que me percebes, talvez elhor que ninguem… Um amigo nosso mandou-me msg poucos dias antes de partir para eu ir beber café com ele e eu n fui… na altura n podia e n imaginas como hoje me arrependo de n ter estado lá… ainda hoje me custa imenso… e tu desde os nossos tempos de escola que tens o dom de estar sempre lá… é por isso que apesar de n nos vermos continuas a ser a minha carla, a minha amiga das panquecas, dos panos em cima da lampada da casa de banho e de tantas aventuras… e quando penso na minha infência TU ESTAS SEMPRE LÁ… obrigada por existires na minha vida!!! bjs*******

    • asiram85 2:10 on 14/08/2009 Permalink | Responder

      Querida,

      Só para te lembrar que estou aqui, apesar de, desde que cheguei, andar um pouco ausente. Muitas emoções e turbilhões. Mas tu, mais do que ninguém, compreendes-me nesta fase. Gosto de estar aqui, num sentido em que só tu sabes que eu estou aqui, tal como sei que também tu estás aqui, na mesma forma e no mesmo mundo paralelo, em que o ESTAR é igual ao SER (e aqui nos apercebemos da beleza do Português…já que nenhum english speaker poderia dizer o mesmo :P).

      LovUUU miga linda…

      Marisa

    • Aga 14:26 on 17/08/2009 Permalink | Responder

      muito, muito muito bom.

  • CarlaOliveira 2:32 on 07/08/2009 Permalink | Responder
    Tags: , , História   

    Alguma coisa a acontecer 

    (Bela):Ele foi bom e delicado,
    mas era mau e era tão mal educado
    Foi tão gentil e tão cortês
    Por que será que não notei nenhuma vez.

    (Fera):Eu reparei no seu olhar
    E nao tremeu quando chegou a me tocar
    Não pode ser, que insensatez
    Jamais alguém me olhou assim alguma vez.

    (Bela):Como ele está mudado
    Claro que ele está longe de ser, um príncipe encantado
    Mas algum encanto ele tem, eu posso ver.

    (Lumiere):Mas vejam só
    (Madame Samovate):Não posso crer
    (Ornoge):Nem eu também
    (Madame Samovate):Não pode ser
    (Lumiere):Como é que podem se entender assim tão bem?
    (Madame Samovate):Que coisa estranha!
    (Todos):O que será que pode haver?Estamos vendo alguma coisa acontecer!
    (Ornoge):É, acho que estamos vendo alguma coisa acontecer.
    (Zip):O que?
    (Madame Samovate):Estamos vendo alguma coisa acontecer.
    (Zip):E o que é mamãe?
    (Madame Samovate):Shhh, eu conto quando crescer.

    ——————-

    LOL, sei que este post vai desencadear respostas que me vão fazer rir. As memórias, as memórias… E não esperem uma explicação: “eu conto quando crescer”.

     
    • Zorze 1:07 on 09/08/2009 Permalink | Responder

      Vi e ouvi esta música pela primeira vez na companhia da minha afilhada…
      Adorei reviver o momento.
      Obrigada
      Já agora
      Será muito verdinho ou Será conversa inocente!!!
      Zinhos

    • Tânia caldeira 13:52 on 10/08/2009 Permalink | Responder

      Amiga já que estás numa de recordações então vê lá este : http://www.youtube.com/watch?v=XORUBZl2fBk

      Temos de combinar um dia destes na casa da nossa amiga Mónia e fazer uma daquelas nossos serões a reviver as nossas infãncias, eu e a nossa amiga fartamo-nos de rir! Looooooooooooool!
      Beijokas bem gds!

  • CarlaOliveira 11:06 on 15/07/2009 Permalink | Responder
    Tags: , , História,   

    O Amor como animal de estimação 

    A Joana estava sempre a dizer que não percebia porque é que os peixinhos de aquário morriam sempre em sua casa. O primeiro, a quem havia chamado Charlie, até mereceu um funeral com florzinhas, tal foi o desgosto da pequena. De tal forma foi o impacto da inexistência repentina de uma vida que a Joana teve até de ser acompanhada para voltar a ter apetite e querer voltar a sair de casa para estar com as amiguinhas.

    O segundo peixinho da Joana demorou a chegar pois ela não queria a nenhum custo voltar a passar por uma situação daquelas que lhe tinha roubado o sorriso e ensinado o sabor do vazio. A este chamara-lhe Goldberg e desde o momento em que entrou lá em casa que a Joana prometeu que havia de tratá-lo como se fosse o primeiro, cuidá-lo bem, dar-lhe carinho e atenção, ser rigorosa nos horários e nos cuidados de limpeza… Tudo teria de ser perfeito pois não queria que houvesse mais lugar para o abandono.

    Efectivamente o Goldberg durou mais. Foi tal a preocupação que o bicho começou a reconhecer a dona, reagia aos movimentos, brincava e ficava mais agitado quando ela estava e sabia sempre as horas e os dias da comida e das limpezas.

    A Joana aprendeu com o Goldberg o sentido da responsabilidade e da cumplicidade. Dedicou-se, esmerou-se e criou laços. Os cuidados tornaram-se um ritual. Mas um ritual dos bons, voluntário, que não precisava de lembretes no telemóvel nem de mnemónicas para não esquecer.

    Houve um dia em que a Joana foi de férias com os pais. O drama! Quem é que iria ficar a tomar conta do pobre peixinho?! Será que se iriam lembrar de dar sempre a comida à mesma hora? E de brincar com o dedo no aquário para que o Goldberg viesse dar beijinhos? E a viagem até à casa onde ficaria o pobre coitado?… se a água se entornasse ou se ele ejoasse no caminho… Todas as preocupações assomaram a cabeça de Joana e durante todos os dias em que esteve fora com os pais não houve um em que não pensasse como estaria o seu companheiro. No regresso, foi uma alegria vê-la sorrir para o Goldberg como se fosse o bem mais precioso do Mundo.

    Mas veio um dia em que Goldberg deixou de estar no aquário. Joana tinha regressado a casa e, quando se abeirou do aquário, só restavam algas e pedrinhas. De novo o vazio. De novo o silêncio. Porque decerto o peixe não teria saído de livre vontade de malas aviadas para outra freguesia. O silêncio retumbava uma ausência definitiva e o aquário voltou para o sótão, de onde Joana voltou a desejar que ele nunca tivesse saído.

    Na verdade, o pequeno aquário não voltou a sair do sótão e um dia veio a tornar-se uma jarra de flores. A Vida retornou assim à pequena bola de vidro assim como também a vida de Joana seguiu em frente.

    Muitos outros Charlies e Goldbergs voltaram a passar na vida de Joana tomando a forma de periquitos, hamsters, porquinhos da índia, canários, tartarugas e coelhos anões. Com a idade aumentava o tamanho e a responsabilidade, mas mantinha sempre o mesmo cuidado, sempre a mesma preocupação, sempre o mesmo amor e dedicação pelos bichos. E sempre o mesmo ciclo de um dia deixarem as suas gaiolas vazias.

    Foi assim que a Joana cresceu. Hoje é adulta e lembra-se de cada um dos Charlies e Goldbergs da sua vida. Como eles, também os homens… Vinham um dia para fazer parte da sua vida. Dedicava-se a eles, entregava-se, cozinhava para eles para jantares glamorosos, limpava a casa para os receber de forma impecável, sempre que os deixava, ficava em cuidado pensando neles a cada momento, no seu bem estar e se estariam a precisar de alguma coisa. Brincava. Dava-lhes a mão e esperava que lhe beijassem a palma, com carinho, com a inocência de um jogo de criança. Criava rituais como o bom dia e o boa noite e também ela ficava mais agitada quando sabia ou sentia que eles vinham, deixando os olhos brilhar quando finalmente se reencontravam.

    No Amor, como no amor. Nos homens como nos bichos. A entrega, a dedicação, a responsabilidade, a preocupação, as bincadeiras, as ausências, os rituais… Mas, como nos bichos, havia sempre um dia em que o aquário ficava vazio. E havia sempre o luto, a ausência, o vazio, a dor…

    O tempo…

    No Amor como no amor. Nos homens como nos bichos. Sempre um novo homem acabava por vir ocupar o seu coração. A grande lição da Joana é que não vale a pena pensar por que razão o Charlie deixou de existir. O facto é que ele deixou de lá estar e pronto. Acabou. Sem questões. Sem rancores. Sem mágoa. O lugar ficou disponível para o novo Charlie. Ainda hoje a Joana acredita que às vezes mais vale nem sequer pensar nas razões do desaparecimento ou da inexistência, mas aceitá-las como um desígnio da vida ou um fruto da irracionalidade dos animais.

    Um novo Charlie ou Goldberg há-de sempre aparecer e a Joana vai continuar vai continuar a dedicar-se, a entregar-se e a cuidar deles como o primeiro porque quando não há remorsos nem mágoas, o seu aquário fica sempre disponível para receber um novo peixinho. E Amá-lo sempre como se fosse o primeiro.

     
    • Nuno 11:46 on 15/07/2009 Permalink | Responder

      Interessa amar o presente e não o passado. O que foi já lá vai e há que viver o presente. Será que a Joana se preocupou mais com o bem estar material dos bichos ao invés de se entregar a eles? Bela história.

      • Carlita 14:32 on 15/07/2009 Permalink | Responder

        “Um novo Charlie ou Goldberg há-de sempre aparecer e a Joana vai continuar vai continuar a dedicar-se, a entregar-se e a cuidar deles como o primeiro porque quando não há remorsos nem mágoas, o seu aquário fica sempre disponível para receber um novo peixinho. E Amá-lo sempre como se fosse o primeiro.”

        • Nuno 16:45 on 15/07/2009 Permalink

          A haver remorsos e mágoas, não deverão ser o novo Charlie ou Goldberg a pagar. Cada peixinho é um peixinho, diferente do anterior, cada um amado e a amar de maneira diferente.

    • Zorze 9:35 on 17/07/2009 Permalink | Responder

      Pois saber como as coisas ocorreram é o princípio da aprendizagem. O livro das lições aprendidas é mais importante que um mero livro de doutrina. Quero eu dizer que na teoria por mais intelecto que é o criador, nunca consegue antever todas as variáveis, (diz para fazer de uma certa forma de acordo com as formulas matemáticas, lei ou pela máxima do eticamente correcto), mas com o treino, por vezes percebemos que existem falhas e temos de aplicar umas manhas para que o acidente não suceda. Muitas vezes é inato e tudo corre, mas para outro é da “experiencia” de terceiros que dita as reacção. Julgo que um QB dos dois é o ideal
      Por vezes, tendo como exemplo o da Joana, aprendeu lições muito importantes para a vida, neste caso a “responsabilidade”e os demais referidos por ti, Mas por outra aprendeu o sentido da vida, que tudo tem um inicio e que durante a nossa vivencia tudo poderá ter um fim abrupto… natuaral!!!
      Zinhos os últimos parágrafos e comentario estão profundos. Adorei

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