Gente feia

Gente feia essa que usa. Gente que se assume e que se revela e que sabe o que vale e que se conhece. Gente que subiu na escada da consciência e consegue ver que uso não é só uma marca de papel higiénico que se vende nos grandes retalhistas alemães. Gente feia, essa que sabe o que sente e que sabe o que faz e que tem a coragem de o fazer conscientemente. Gente gentinha, repleta de pouca-vergonha e de valores duvidáveis…. Gente que se usa da companhia do outro, gente que telefona, dá atenção, que procura companhia, gente que procura um regaço porque sabe bem e faz bem. Gente que se deixa levar pelos sentidos. Gente feia, não é? Gente que escuta o que sente e não permite a mente ou a sociedade ou o olhar da vizinha mitigar a vontade e dar a vitória à censura. Gente feia essa que tem mais coragem que a crítica, gente que nega o que é correcto só porque alguém estipulou que era certo, sendo alguém uma camada de alguéns sem rosto e sem escrúpulos e que não aprendeu nada do alfabeto interior. Cambada de gente essa que se usa dos outros para viver, repito, para VIVER, para saborear a vida sem egoísmos, para sentir, para rir, para rir muito, rir em conjunto e criar sinfonias inaudíveis. Gente que se liberta, que se cura do estigma social que tem mais coragem que a censura que corrói por dentro, que ousa e vai à luta e que nessa investida escolhe alguém para estar junto de si para que o caminho da vida seja mais completo, repleto, pleno e agradável. Partilhado.

Coisa feia. Gente feia…

… O bom é que é uma espécie de gente habitualmente carregada de sarcasmo e de ironia que tresanda a anis, a gengibre e a Sonasol e a todas essas coisas não necessariamente más, mas que conseguem incomodar. E essa gente borrifa-se alegremente para todos os que não entendem a diferença entre usar alguém e gostar de alguém. Simplesmente gostar. Sem promessas. Sem renúncias. Sem dívidas. Sem freios.

E digo mais, é muito presunçoso achar-se em posição de ser necessário ser “usado” para fazer bem a alguém. Como se houvesse alguma solução nisso. Como se isso resolvesse alguma coisa. Como se o facto de se sentir usado significasse que o outro tenha sido útil. Gargalho. Gargalho muito. Não consigo parar de gargalhar. Porque alguém com a coragem de ser gente feia e de assumir querer estar com alguém assim nunca precisaria de se usar de alguém por isso ser instrumentalmente útil. Não é disso que a gente feia precisa. Na verdade, precisava de muito mais, só que os usados não entendem. Feios!

Who, being loved, is poor? Oscal Wilde Memorial Garden, Dublin.

Who, being loved, is poor? Oscal Wilde Memorial Garden, Dublin.

 

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