O que a verdade não cala

Eu posso calar. Eu posso ter calado. Mas a verdade não cala nem apaga o que acontece. E, para o bem e para o mal, ainda bem que assim é. Somos o resultado de tudo isso; do que fizemos, do que vivemos, do que sofremos e do que construímos a partir daí.

A verdade diz-me que tive de aprender a lidar com o abandono. Com o não ter sido suficientemente importante para me terem querido num projecto de futuro. Depois, a verdade disse-me que mais do que aprender a lidar com o abandono e com a auto-estima esfarrapada por alguém que não me quis, ainda me ensinou a amar incondicionalmente. Amar como quem sabe que tem uma doença terminal e que um dia tudo irá acabar. Amar como quem nem sequer espera ou exige que o outro fique, que o outro ame, que o outro respeite a nossa opinião. Amar na saúde e na doença… da cabeça e do coração. Amar, amar, amar. Como se ama alguém que nos vai deixar?! Ama-se a prazo? Meu Deus, isso existe?! Amas alguém que te deixa e vai partir para sempre?! Amas alguém que não te quer e que optou por outra vida diametralmente oposta? Amas alguém que não considera um futuro a dois? Amas alguém que foge de ti? Amas alguém que não hesita em bradar que não quer voltar nunca mais? Amas alguém que não volta? Amas alguém que decide por ti? Amas alguém que parte, mesmo que em busca de um futuro melhor. Sem ti?

A resposta é simples. A resposta é sim.

Amas alguém que não queres perder. Amas alguém que não queres que parta. Amas até ao fim para que esse fim não chegue. Nunca. Amas alguém que te irá deixar um dia porque queres prolongar esse prazo. Queres adiar um fim. Queres continuar a amar. Queres demonstrar que amas. Queres, queres, queres… e ao mesmo tempo calas. Calas porque queres amar em liberdade. Queres que a pessoa que amas tome as suas decisões em liberdade. Sem o peso da tua influência que quer amarrar o amor. Calas porque amar é deixar ir, é deixar o outro livre de tomar as suas opções. Calas porque não queres ser egoísta. Calas porque não queres que amar seja possuir. Porque não é. E sabes que mais? Vais calar. Vais calar porque acreditas que amar é ficar. Que o amor não te deixa. Que o amor ama calado. Que o amor é mais forte. Calas não porque consentes, mas porque sentes. Sentes que ao calares estarás a respeitar o amor, as suas decisões. Calas porque sabes sofrer calada. Calas porque acreditas. Acreditas que deste razões para que o amor possa calar e ficar.

Sim, digo-te eu. Calas! Calas porque, no limite, depois de teres sido deixada e não teres sido a opção da pessoa que amas, a tua força não te permite gritar que sofres. A tua força destrói-te porque te deixou. A tua força abandonou-te e rasteja por debaixo da auto-estima que perdeste… Sim, porque não se é deixado sem rasgar a auto-estima, sem menosprezar o que és, o que vales, o que significas para a pessoa que te abandona. Ou o que não significas… Afinal, que amor-próprio se pode ter quando não és considerado suficientemente importante? Quando te deixam. Quando partem sem ti.

Sim, digo-te eu. Morres. Morres por dentro. Morres porque calas. Morres porque amas. E amordaças o sentimento praticando o correcto e contra a tua raiva, a tua dor, o teu peito, os teus olhos, as tuas lágrimas choradas em silêncio e na solidão da tua dor. Amordaças-te amando em silêncio. Amando até as palavras despejadas nos jantares e nos convívios de que desejas a sorte e a felicidade. Desejas o quê?! Desejavas que a sorte e a felicidade ficassem contigo, isso é que desejavas… Mas não. A felicidade e a sorte abandonaram-te para o outro lado do mundo, lembras-te?!

Não se supera um amor negado, calado e amordaçado, não correspondido e não respeitado. Vive-se. Sobrevive-se.

A esperança não morre. Mas tu podes morrer. E morres. Morres cada dia que passa e que sorris no teu mar cor-de-rosa que banha a baía de todas as coisas que calaste e quiseste superar. Não, a esperança não morre, não. Mas mata-te. E tens de viver com isso porque tu és o resultado de tudo isso; do que fazes, do que vives, do que sofres e do que constróis a partir daí.

Dá a quem amas: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar” – Dalai Lama

Advertisements