Quando conheceres a vida vais ter saudades…

“Quando conheceres a vida vais ter saudades.”

Pois é, parece que os receios e anseios da infância e da adolescência que nos atormentavam e pareciam tão distantes aos nossos olhos, aos poucos se vão sucedendo e nos vão surpreendendo de Verdade. E é tão difícil admitir que é verdade, que os adultos tinham razão… Que aquela vozinha da consciência omnipresente e omnipotente d’”Os mais velhos” se cumpre… Hoje somos nós os adultos e restam em nós as recordações e ficam em nós as memórias das palavras que nos diziam e que não queríamos ouvir, mas que invariavelmente memorizávamos. Hoje, é a nós que nos cabe passar a mensagem aos mais novos, àqueles que não vão querer ouvir, que mal vão acreditar, mas em quem a mensagem irá ecoar e permanecer até ao momento em que, quando adultos, também a eles a Verdade se revelar. Como a mim. Como agora…

Nem sei como é que este registo ainda existe, mas a verdade é que sei de cor, de fio a pavio, a letra desta música de infância. Marcou-me de forma profunda ao incutir em mim um medo adiado… Fez-me guardar na memória durante todo este tempo um medo de que a letra se realizasse. E ditava assim:

“Não desligues o som

Deixa ficar a música

Ouve o que te vou contar

Ouve esta guitarra

este som tão belo

Escolhes para se chorar

Mas é a fingir

É só a fingir”

(Pausa para pensar como a guitarra sempre teve esse poder de me eriçar os pêlos e erguer os poros, desafiando as pupilas da sensibilidade…)

“Não desligues o som

Deixa ficar a música

Como se fosse o vento

Ou talvez a voz de um amigo

Com saudades tuas

Um amigo que está longe

Ele não lembra de ti

Mas não fiques triste”.

(Intervalo para pensar como isto, realmente, em tempo remotos acabou por acontecer. Sigamos.)

“Não desligues o som

E diz à tua mãe que já vais

Pensa só em ti

Ouve esta guitarra que toca só para ti

Tens toda a vida à tua frente

Não há pressa

Não há pressa

Deixa vir a música

Deixa vir a música…”

E era assim, deixando vir a música que a mensagem se entranhava e eu construía em mim o medo de que um amigo fosse para um local distante e se esquecesse de mim… O monstro de ter a vida toda à tua frente” e teres de a enfrentar… O medo de adiar, de fechar as portas à música, de deixares de ser tu. Mas o melhor ainda está para vir…

Refrão:

“Um dia mais tarde vais lembrar-te desta noite, vais ter saudades do tempo

Em que ouvias uma guitarra que tocava só para ti

Nessa altura, quando já fores mais crescida.

Nessa altura, quando conheceres a vida vais ter saudades, ter saudades”.

E pronto. Esta é a altura do tcharan. Sim, é verdade, tenho saudades do tempo em que uma guitarra tocava só para mim. E, sim, é verdade, lembro-me desse tempo em que pensava em mim nestes anos todos depois e indagava se dali a uns 10 ou 15 anos ainda me lembraria do que estava a sentir naquele momento. Lembro-me como se tivesse sido ontem. É tão verdade quanto então. E é tão cruel como da primeira vez.

Um dia mais tarde vou ter saudades do tempo em que me dedicava à escrita e às memórias, à fotografia e ás redes sociais, aos blogues, aos amigos e à família… Ao agora que um dia mais tarde será memória.

Mas a guitarra, meu deus, dessa guitarra… Sim, tenho saudades do tempo em que tocava só para mim e dos momentos de cumplicidade que passei comigo, no meu quarto, a ler partituras e a dedilhar emoções…

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