O amor vivido nas histórias do “e foram…

O amor vivido nas histórias do “e foram felizes para sempre…” sempre me levantou muitas dúvidas. Mas se no amor houve algo que nunca questionei foi a evidência do transtorno interior. E sei que amo sempre que o amor me toca e me transtorna. E é um transtorno transcendente que nos eleva, apesar de esta ser uma dedução racional de um sentimento físico…

Seja ou não seja o amor uma evidência racionalizada, percebi isso do amor quando me deixei tocar por algo mais do que uma pessoa, do que uma rosa vermelha, uma caixa de bombons ou até mesmo um anel. Deixei que essa coisa entrasse em pequenos rasgos inesperados em momentos do dia-a-dia e deixei-me “apaixonar” (naquele sentido superior à paixão) até ao transtorno.

Talvez tudo isto seja complicado para quem ainda não se deixou, verdadeiramente, levar. É um pouco como o atingir um orgasmo (e falo especificamente no caso da mulher, assumindo deliberadamente as diferenças naturais e idiossincráticas daquele tipo de orgasmo feminino que só existe para lá do plano físico). Se não nos deixarmos ir, é impossível lá chegarmos… Assim é o amor. Aquele amor transcendente que só existe se o deixarmos entrar.

Hoje percebo que o amor não acontece. O amor existe. O que acontece é o transtorno que só tem lugar quando nos deixamos levar. E sabe tão bem… Principalmente porque o amor deixa de ser aquilo do “e viveram felizes para sempre” e passa a ser omnipresente e passível em vários momentos, entre várias pessoas, para com objectos, para com outros seres, único ou repetível… num fluxo de energias que nos move, que nos preenche e que nos transtorna.

E hoje deixei-me apaixonar mais uma vez. Senti aquela avalanche de volts revolver-me por dentro, eriçar-me os poros e deixar-me os pêlos em pé… Fazer-me caminhar como uma barata tonta, desnorteada e longe de mim, pisando os pés descoordenados e com força em sentidos perplexos… E deixar-me irrequieta como se tivesse tido um pico de tensão que teima em não baixar até sentirmos que algo de estranho se passa (Há um momento em que pensamos mesmo se não será uma questão de saúde). Torna-se estranho. Depois vai passando e fica um borbulhar no peito até que aos poucos desvanece. No final parece que perdemos umas quantas calorias e sentimo-nos estranhamente reconfortados, meios sem-jeito.

Será assim o amor? Será isto o amor? E mais importante do que isto, terá o amor de ser exclusivo entre dois seres, duradouro e unicamente bidireccional?! Não poderei amar o que não sabe que está a ser amado ou o que não me ama de volta?! Não poderei amar algo num momento de forma profunda e devota e simplesmente deixar de sentir as energias a fluir num outro momento perante o mesmo objecto?!

Bem, na minha concepção de amor, isto É amor e não tem de ser exclusivo nem eterno nem bidireccional. Amor num sentido meta-relação do “e viveram felizes para sempre”, num sentido mais transcendente e imaterial não tem nem deve deixar-se prender pelas amarras culturais do “e viveram felizes para sempre”. Não tem de se consumar, só tem de se sentir… E o que se sente é pessoal, único e intransmissível. Logo, não tem de ser exclusivo nem eterno nem bidireccional nem partilhado… O amor é cá dentro e não acontece. Deixa-se que entre e que, simplesmente, Seja.

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