Começo este post dizendo que o que mais …

Começo este post dizendo que o que mais custa ao viajar sozinha é tomar a decisão. Depois, em grau descendente, diria que é superar medos e inseguranças e, em terceiro, termos de lidar com eles todos os dias.

Tens medo de te perder? Arranja um mapa. Pede ajuda. Está atenta. Se tu não estiveres, ninguém estará por ti. Memoriza pontos de referência e percebe em que sentido estás relativamente a eles (um edifício alto, o mar, o aeroporto…).

Medo de perder o transporte? Tens de saber arranjar outras soluções. Táxis? Redes de autocarros? Rent-a-car? … Começa a pensar saber de cor a morada para onde queres ir ou tê-la num papel sempre contigo. E o telefone.

Medo de que te aconteça alguma coisa e ninguém esteja lá para te apoiar? Pois… aí é mesmo aguentares-te à bronca e tentares ir pelos procedimentos legais ou encontrar alguém que te queira ajudar.

Tens medo de jantar sozinha? Vai meter conversa com alguém.

Medo de ficar num canto do balcão com o copo na mão olhar o vazio? Leva um livro, uma revista, um mapa, um caderno… não deixes que a ansiedade física te assalte em remexeres de dedos e em evitares de olhar, fingindo que a ausência de companhia te está a perturbar seriamente. Incomoda, sim. Mas deixa-nos simultaneamente orgulhosos por sermos diferentes e enfrentarmos a situação sem o “outro”. Sem “a” companhia.

Tens medo de que te assaltem, raptem, molestem? Arranja esquemas. Esconde documentos essenciais. Dá os teus dados a alguém para o caso de deixares de “dar sinais de vida”. Esse alguém pode sempre agir, mesmo que à distância. Há truques básicos que muitas pessoas adoptam, mas o melhor é mesmo usar a criatividade para que ninguém mais chegue aos esconderijos e planos a que tu chegaste.

Medo de seres mal interpretada só pelo facto de estares e/ou viajares sozinha? De ser mal interpretada por meter conversa com alguém, estando sozinha e sem quaisquer intenções adicionais? (sim, isso irá acontecer!) Assume uma postura forte e determinada. Encontra as tuas forças. Sê assertiva. Sai sagazmente do filme. Inventa. Sê criativa. Diverte-te com a superação das tuas inseguranças, mas nunca te deixes levar.

Em oito dias que estive fora nunca fui capaz de beber mais do que uma bebida por noite. E eu sou habitualmente até bastante resistente aos efeitos do álcool… e bebo com frequência semanal… Mas simplesmente não consegui conceber estar em circunstâncias assim e optar pela via da irresponsabilidade e da libertação em modo mais “inconsciente”… Simplesmente não faz parte de mim. Só o pensar que me tornava um alvo fácil e vulnerável por estar um pouco mais liberta e fora de mim, estando sozinha, tornava-me totalmente incompatível com o álcool e com ambientes de exuberância e exaltação.

Medo de te enfrentares a ti própria? De enfrentares o facto de estares sozinha? De reflectires e chegares a respostas que não querias ter? De lidares dia-a-dia com as tuas angústias, questões, inquietações e frustrações? Medo de nunca deixares de ter medo?

Sim, tudo isso acontece. E tudo isso faz sentido. E tudo isso nos elucida. E tudo isso nos torna mais… estúpidas! Porquê? Porque gradualmente vamos atingindo a consciência e a lucidez e, ao atingi-las, tornamo-nos cúmplices e responsáveis pelas nossas atitudes e decisões de aí em diante. Como se fôssemos um “big brother” de nós mesmos, um outro “eu” que nos observa e condena por não fazermos o que já percebemos que está incorrecto. E não tomarmos o caminho que percebemos que devemos tomar. É como se nos tornássemos o anjinho ou o diabinho do nosso ombro direito e esquerdo.

Estar sozinho é um caminho para a auto-compreensão e não para a solidão, como eu pensei no início desta viagem.

Estar sozinho é um desafio interior, mais do que um desafio social do que “os outros” nos poderão fazer ou achar de nós (ou daquilo que poderemos fazer com os outros…). Temos a consciência de que nunca mais iremos ver aquelas pessoas e elas nunca mais nos irão ver a nós… e isso dá-nos aquele sentimento de liberdade que devíamos ter no dia-a-dia “normal”, mas que simplesmente não nos permitimos ter…

Andei mal vestida e não me senti culpada.

Não dei gorjetas e não me senti comprometida.

Perguntei coisas óbvias e não me senti estúpida.

Pedi ajuda e não me senti inferior.

Pedi conselhos e não me senti incapaz.

Tirei fotografias em público nas poses mais inesperadas e não me senti uma estranha na multidão.

No fundo, a libertação que sentimos no mundo desconhecido não passa de uma libertação das nossas próprias repressões. As que criamos para nós pela nossa ideia de potencial repreensão alheia. Estar sozinho liberta-nos da censura que achamos que os outros vão ter porque simplesmente não nos importamos com isso! Nunca mais os iremos voltar a ver! Damo-nos a oportunidade de sermos “nós” porque temos uma relação efémera e livre de juízos de valor e das suas consequências por parte dos outros.

E é isso que depois nos assusta. Até que ponto é que a nossa liberdade nos deixa confortáveis?! Até que ponto é que sermos nós próprios é fácil e nos faz sentir bem (quando estamos habituados a viver comprimidos na liberdade que nos castramos). É mais ou menos como sairmos da segurança da barriga das nossas mães e de repente percebermos que estamos por nossa conta. Temos de respirar sozinhos, puxar pelo alimento se nos quisermos alimentar e ir aprendendo a enfrentar o frio, o toque, a gravidade, e todos aqueles desafios que vamos descobrindo ao longo da vida. Porque ser autêntica é libertarmo-nos da repreensão auto-infligida que ao longo da vida fomos integrando como parte da nossa identidade também. E é isso que custa. Sermos “nós” é abdicarmos também de algo que construímos para nós por impulsos de auto-protecção. Não havendo perspectiva de futuro, não há espaço para a consequência da repreensão, porque tudo o resto será tão efémero que morrerá ali. E, logo, não precisamos desse tipo de protecção…

Complexo?

Talvez…

Difícil? Sim, porque (como disse) nos tornamos cúmplices dos nossos erros a partir do momento em que temos consciência de que eles existem e os continuamos a protelar. Difícil porque, depois da consciência, nos tornamos os primeiros repreensores da nossa própria falta de coragem, do nosso próprio amorfismo e apatia tão confortáveis. Difícil porque o confronto com a nossa imperfeição nos mói e nos mata ao mesmo tempo que nos indica um caminho melhor – que não optamos trilhar. Por cobardia.

E voltamos cheios de garra e cheios de nós. Fomos, viemos, tivemos medo, tivemos abordagens que não queríamos, tivemos momentos alegres, outros tristes, outros emocionantes, outros entediantes. E vimo-nos obrigados a partilhar isso connosco… E contar só connosco. E viver só connosco. E jantar só connosco. Apreciar um gin só connosco. E rirmo-nos de nós. E é uma descoberta porque a verdade é que nos adiamos e anulamos no quotidiano das nossas zonas de conforto habituais.

A única coisa que posso dizer depois de tanta explanação é: Veni. Vidi. Vici. E vou voltar.

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