Quanto mais alto se sobe…

Gosto de fugir aos cânones, ao óbvio e ao conforto. O português comum – categoria na qual eu me incluo – de imediato termina a frase com “maior é a queda”. E, sim, quando somos tocados pelo desgosto, pela queda, pela perda, pelo despedimento ou por qualquer outro tipo de infortúnio associado ao fracasso das nossas conquistas, acreditamos e vociferamos o aforismo com fervor. E gritamos para que todo o mundo ouça: QUANTO MAIS ALTO SE SOBE, MAIOR É A QUEDA tentando aliviar o sofrimento associado.

Ora, três princípios estão intrinsecamente mal nesta postura: em primeiro lugar, o facto de nos auto-recriminarmos, -repreendermos e -flagelarmos por termos alcançado o “alto”, uma posição mais ambiciosa na nossa vida. Na vez de reconhecermos o nosso valor nessa conquista e no trilho que traçámos e desbravámos até ali, reconhecermos as experiências e vivências com as quais aprendemos, damos o facto como inútil e desmerecedor de valor, não o reconhecendo. Erro crasso!

O segundo mau princípio desta premissa é o facto de nos desresponsabilizar da queda. Ao afirmarmos que o problema foi “a subida” e que estamos a ser “vítimas” da queda, não nos responsabilizamos pelo fracasso ou insucesso do nosso projecto (como se as quedas não fossem também nossa culpa….). Se por um lado o problema não é termos “subido mais alto”, facto do qual devíamos sentir-nos orgulhosos, por outro também não nos podemos desresponsabilizar da não-prossecução dessa subida, como se não tivéssemos encargos ou uma factura sobre as consequências das nossas acções. Está mal!

Em terceiro lugar, se clamamos à partida que “quanto mais alto se sobe, maior é a queda” para que é que subimos?! Significa isso que não vale a pena subir?! Não, não é… É que nós subimos exactamente por não pensarmos assim, daí termos arriscado. Só que depois não correu bem e precisamos de um refúgio, de uma desculpa… e aí vem o aforismo do alto da sua sapiência desresponsabilizar-se à boa maneira popular: “Pois, quanto mais alto se sobe… maior é a queda… ”

Oh, meus amigos… são demasiados maus augúrios para uma frase só. Mas não clamo a sua inutilidade. Se ela serve para nos libertar, para nos dar força para seguir em frente e nos serve de bengala para nos ajudar a superar a difícil fase do fracasso, então gritemos todos a alto e bom som: QUANTO MAIS ALTO SE SOBE, MAIOR É A QUEDAAAAAA.

Pronto. Já passou.

Agora esqueçamos o conteúdo e os maus princípios e vamos lá todos acreditar que, na verdade, quanto mais alto se sobe, melhor é a vista! Quanto mais alto se sobe, melhor visão temos sobre o mundo e maior dimensão sobre o que nos rodeia. Quanto mais alto se sobe, maior discernimento e clarividência alcançamos…

E por isso vos digo, para mim, quanto mais alto se sobre, mais perto ficamos do céu.

PS – Isto foi um aperitivo para o próximo post com o restante relato da viagem à Madeira. No próximo “capítulo” iremos até alguns dos pontos mais altos da ilha (e de Portugal) – o Pico Ruivo e o Pico do Areeiro. Até já.
Anúncios