Let us have faith that right makes might

Fachada da Câmara Municipal de Los Angeles

Sou uma mulher de fé. E desde cedo que a própria Religião soube compreender e até demonstrar em forma de aforismo que a fé pode mover montanhas. No entanto, se nos debruçarmos sobre a célebre expressão “se Maomé não vai à montanha, vai a montanha a Maomé” acabamos por perceber que, por vezes, pode ser mais fácil mudar o mundo a favor do indivíduo que mudar a vontade ou a convicção do Homem a favor do mundo (e entendamos “mundo” aqui numa acepção do mundo social, do “Outro”).

Ah, e tal, se o gaijo (ou “o Senhor Gaijo”, para não ferir as susceptibilidades de ninguém) não quis à montanha, então mude-se lá o mundo e as montanhas a seu favor… Isto não passam de metáforas descontextualizadas e deliberadamente aparvalhadas que demonstram que podemos sempre dar o sentido que quisermos aos ditados e aos aforismos, independentemente do seu sentido original. Podemos usá-las e aplicá-las de várias formas, com vários sentidos ou intenções, conforme os queiramos – ou não – entender.

Assim é também com o excerto de Licoln. Abstraindo-nos do pendor político que teve no seu contexto, associado à questão dos abusos cegos de poder, a verdade é que a fé e o sentido humano de justiça podem mover montanhas. “Let us have faith that right makes might”. Mas na fé do Homem e na sua noção do que é “right”, no que justo ou injusto é que não ouse ninguém interferir! Somos todos os mais justos, os mais correctos, os detentores da razão – quanto mais não seja, detentores da nossa própria razão, da nossa opinião. E temos esse direito.

Mas o que é, afinal, o justo quando há mais pessoas em questão? Quando há duas pessoas em questão? Quando há uma família em questão? Uma propriedade? Um país? A Humanindade? O mundo? Não há sentido de justiça que aguente a fronteira do direito que cada Ser individualmente reclama para si. E não há fé que interfira nessa dita ousadia de deixar o Outro interferir na vontade individual de cada um.

Como disse, sou uma mulher de fé. E também eu reclamo para mim um sentido de justiça no qual acredito e que tento fazer valer. Mas entre Maomé, Lincoln e a vida aprendi algo sobre o sentido de justiça – é que a justiça só é válida quando gera consensos. Isso só se faz tentando deixar entrar a “ousadia” do mundo – ou a ousadia do Outro – nas vontades e convicções individuais de cada um.

Isto é, às vezes não têm de ser as montanhas a mudar pela casmurrice de um Senhor Gaijo qualquer. Há que ceder. E ceder é deixar que o Outro interfira na nossa noção de justo, nas nossas convicções e opiniões. Só assim se geram consensos e só assim se constrói justiça. Mas daquela válida – da que é consensualmente aceite e faz o mundo girar. Portanto, deixem! Deixem-me ter fé. Deixem-me acreditar nesta justiça. Deixei-me levar pela crença de que o que é correcto pode fazer o mundo girar, mesmo que o mundo gire na mesma sem eu acreditar. Mesmo que a rotação não dependa nem do homem, nem da fé, nem da justiça. Se calhar até é mesmo a montanha que se move. Se calhar é mesmo o mundo que nos move e não o contrário… Mas se não houver um mínimo de fé, um mínimo de justiça, um mínimo de consenso, de que nos vale acreditar que somos nós que fazemos o mundo girar?!

Eu tenho fé. Eu acredito no sentido de Justiça. E eu acredito que somos nós que fazemos o mundo acontecer. Essa é a condição de ser Homem e para isso só temos de conseguir encontrar os tais consensos que validem a Justiça nas relações, nas famílias, nas propriedades, nos países, na humanidade e no mundo. Só temos que dar espaço à ousadia do Outro entrar no nosso mundo, do Outro ter a sua fé e na crença de que isso é que é viver e fazer o mundo acontecer. Porque se não formos nós, o mundo vai girar na mesma e nós vamos ser meros passageiros inertes, amorfos, indiferentes, invisíveis, inexistentes. E de costas voltadas.

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