Made in Madeira

Era uma vez uma menina que há muito tempo que recebia convites de uma grande amiga sua dos tempos de Faculdade para ir visitar a sua terra, a Madeira. Passou-se um, dois, três… seis anos e nada. Até que, num certo dia, a menina foi convidada pela amiga madeirense para ir ter ao aeroporto de Lisboa visto que se encontrava lá por umas horas numa ligação de vôos. No café que tomaram nesse entretanto, eis que surge o pedido: “Amiga, vou casar e quero que sejas a minha madrinha de casamento. Aceitas?”.
E foi assim que tudo começou.
 
A viagem durou 7 dias. Dois no stress-pré-casamento; um no stress-do-casamento e quatro dias mais calmos, de passeio, sem stress algum.
 
Dia 1 – A chegada e o reconhecimento
O dia estava limpo e a viagem de ida foi irritantemente tranquila. Ainda ansiei por uma turbulênciazinha pequenina que me fizesse borboletas no estômago, mas nada disso. Comigo os vôos nunca atrasam e nunca têm qualquer tipo de emoção (Já cheguei até a ponderar abrir um negócio em nome individual para ser amuleto da sorte para quem tem medo de voar…). A aproximação à Madeira foi lindíssima pois contornámos a ilha para nos fazermos à pista e aterrarmos. À espera tinha uns confortáveis 25 graus sem vento e dois sorrisos rasgados que me apertaram a quatro braços.
Os noivos não apresentavam sinais de stress. Falavam de planos para a nossa semana e de gestão logística: que carro levar, cortar a relva, pintar a fachada para as fotografias, que quarto preparar e coisas do género. Enquanto isso, um TAP alfacinha aterrou de forma ainda mais irritantemente tranquila na pista e de lá saiu o meu acompanhante. Lá vinha ele, com o seu passo semi seguro e o paraíso algures no ar. Mas não fui eu que o vi. O noivo viu-o primeiro e, mesmo sem nunca o ter conhecido, pareceu identificá-lo logo a mim. De forma um pouco estranha, só sei que ele não teve dúvidas de que seria ele. Das duas, uma: ou eu faço boas descrições ou por muito que tente, do alto do seu metro e noventa o meu querido acompanhante não consegue mesmo passar despercebido (BEM HAJA! No terceiro dia irão perceber o porquê….)
 
Primeiro fomos conhecer a casa dos noivos (onde iríamos ficar). De Santa Cruz ao Caniço – mais precisamente ao Garajau – são uns 10 minutos e o apartamento, moderno e de bom gosto, ficava virado para o mar num segundo andar cheio de estilo e com um quarto só para nós. Depois saímos e fomos passear pelo Funchal enquanto a noiva trabalhou a tarde toda até à noite (a pobre coitada…). Conhecemos as princpais atracções da baixa do Funchal, desde a Avenida do Mar (a que nós, os do “contenente”, chamariamos de Marginal!), a Marina, as principais ruas da baixa como a Avenida Arriaga, onde se encontra a estátua de João Gonçalves Zarco, a Sé, o Banco de Portugal, o Café Golden Gate (que aliás consta numa das 1001 razões para visitar Portugal) e onde decorria a feira do livro.
O almoço de “boas vindas” foi no “Yatch-Bar” Beatles, ao que parece muito antigo e famoso, e não admira pois é realmente muito giro! Trata-se de um iate com mesas interiores e superiores que está circundado de água onde se encontram pequenos botes que servem de mesa de refeição unidos por ligações de madeira sobre a água. Um conceito criativo e acolhedor onde pude degustar um belo linguado com legumes salteados acompanhado por um branco “da casa” fresquinho.
Demos umas voltas pela baixa e pelas principais avenidas que descem do topo da ilha e de onde é possível atravessarmos o ano em poucos minutos – da Rua 31 de Janeiro para a 5 de Outubro – em menos de 1 minuto, lol.
 
Fora de brincadeiras, estas são as ruas que constam nas nossas mais recentes memórias da Madeira… São as que descem do topo da ilha até ao mar e no meio das quais se encontra a ribeira que alagou o Funchal no fatídico dia do temporal de 20 de Fevereiro. Só ao ver a profundidade do leito consegui perceber a dimensão e a força das águas e, então, recordar as imagens da vaga de destruição. Só aí caí em mim e assentei os pés na Terra: mal tinham passado quatro meses desde o dia do temporal e os vestígios dos estragos já estavam praticamente despercebidos. Só quem sabia ou tivesse vivido a tragédia é que se apercebia das marcas físicas que o temporal deixou. O turista comum ou o viajante ocasional não se aperceberia da dimensão destruíção que foi pois um passeio destruído, umas obras numa ponte ou uma rua a ser calcetada são situações perfeitamente vulgares em qualquer local do Mundo… Esta imagem da ribeira só me fez crer que foi realmente uma reconstrução extraordinária, enérgica e motivante fez-me reflectir a cultura e o estilo de vida madeirenses. Pelo menos essa foi a percepção e a ideia com que eu fiquei.
 
Percorremos a ilha pelo litoral para Oeste onde parámos no Lido – uma zona balnear onde há um ilhéu, praias de pedras negras, hotéis, cafés e uma “promenade”. Depois continuámos até à Praia Formosa passando pelo Casino. Nos cafés da beira-mar comemos moelas, tremoços, provámos o refresco regional Brisa de maracujá e também a bela cerveja Coral. Houve até tempo para uma oração à boa disposição, eheheh.
 
À noite foi dia de “despedida de solteira”, mas antes da festa ainda houve tempo para um belo jantar na Adega do Caniço onde provei pela primeira vez o famoso bolo do caco. Fui ao céu e voltei. Agradeci a Deus a existência da pessoa que inventou o bolo do caco e depois prometi a mim mesma que nos dias seguintes iria cumprir a dieta. Entretanto comi espetadas de lulas e gambas com salada e voltei a agradecer ao Santíssimo ter nascido em terras de peixe fresco e adorar “comer saudável”. Na verdade já nos tratamos por tu. Mas o dia era de festa e, obviamente, o resto da noite foi dado ao pecado e à heresia, não fosse este o (pen)último dia de solteira da minha amiga…
 
Dia 2
O dia seguinte foi dia de stress. Compras, depilação, vestido da noiva, malas, echarpes e acessórios, tratar da florista, tratar do bolo de casamento, lavar os carros e tudo o que está directa, indirecta e potencialmente relacionado com o stress de um dia de casamento. À tarde fomos jantar a casa da família da noiva. Pessoas amáveis, divertidíssimas, simpáticas, adoráveis, impecáveis! Muito bons momentos passados ali ao relento onde tivémos direito a outras iguarias madeirenses: picadinho de carne, vinho da madeira e milho frito. Pelo caminho ainda provámos poncha da verdadeira e caí na esparrela do lamber o acessório com que se mistura a dita cuja, vulgo “caralhinho”.
Dia 3
Dia de casamento. Deste dia só vou contar uma coisa. Ao contrário da tradição, neste casamento a última pessoa a chegar não foi a noiva, mas sim… adivinhem: a madrinha!!! (sim, EU!). E porquê?! Porque se conduzir um carro a gasolina pela primeira vez numa terra com estradas estreitinhas, esburacadas e com um grau de inclinação superior a qualquer digníssima subida de montanha-russa (sim, aquilo põe a Rua do Alecrim e o Bairro Alto a um canto!) já é, de si, difícil, conduzir esse mesmo carro com umas sandálias de stilettos de 10 cm de altura é, acreditem, tarefa humanamente impossível. Conclusão: tive de tirar as sandálias para levar o carro e depois voltar a calçá-las quando saí do carro. Ora, estas coisas para uma mulher podem revelar-se verdadeiramente complicadas quando temos de conseguir enfiar os 5 dedos dentro de umas tirinhas estreitas e entrelaçadas, manter as palmilhas de silicone no sítio (para conseguir andar sem parecer que estamos interiormente a contorcer-nos de dor mantendo um sorriso aceitável e ainda cruzar duas tiras pelo calcanhar e fechá-las de lado com umas fivelas tão pequenas que mais parecem vindas do vestido da Barbie… isto tudo sem estragar as unhas que fomos arranjar e que nos custaram os olhos da cara. Ah, e temos DOIS pés, hein!
Em suma, enquanto eu tentava cumprir com esta minha árdua tarefa, todos me stressavam a dizer que a noiva estava à minha espera e os convidados esperavam todos em banda à porta da igreja olhando-me de soslaio ali, encostada ao muro da igreja, com a elegância e o pudor a rastejar no chão a tentar num acto heróico empoleirar-me naquilo a que alguém se signou a chamar de sandálias. Eu chamaria de acessório de tortura, mas pronto. Finalmente lá consegui entrar, os turistas das redondezas fizeram o gosto às suas Canons e Nikons e os noivos lá se casaram.
 
Menti. Afinal vou contar outro episódio que marcou este dia de casamento. Aliás, a noite! Lembram-se de ter mencionado a importância da altura de um acompanhante? Pois bem, mais do que ter um acompanhante à altura é importante que o acompanhante tenha, de facto, altura. Porquê? Porque se o acompanhante não tem altura, das duas, uma, ou ela é grande ou ele é que é pequeno. Pessoalmente, não gosto da primeira opção porque o meu 1,70m seria um requisito mínimo para poder ser modelo (no festival das orcas marinhas, claro, porque caso contrário teria de esquecer de vez o bolo do caco e rezar de novo ao Santíssimo para me dividir em dois e dar os extras à caridade para alimentar as criancinhas da Etiópia). A segunda opção coloca o acompanhante numa situação de clara inferioridade vertical. Não tenho nada contra, aliás, por mim os casais com grandes diferenças de altura até são um bom motivo de gargalhada nacional e contribuem para aumentar o leque de piadolas sociais. Por isso, repito, não tenho nada contra, mas lá que a abertura do baile da madrinha a dançar com o noivo foi motivo de gargalhada geral, isso ninguém poderá negar! E até poderia ter ficado por aí, mas não é que o padrinho do noivo, meu segundo par oficial do baile, era ainda mais pequeno?! Houve momentos em que até ponderei se deveria se eu a pôr as mãos abaixo dos braços dele para que as pessoas vissem que efectivamente estava ali alguém no meio dos meus braços e do meu vestido… Três vivas ao meu par de metro e noventa, please! Foi o momento em que me senti mais normal em todo o baile. (sim, porque a parte em que afugentámos toda a gente da pista de dança com a coreografia do Thriller não conta, tá?!)
 
Dia 4
Dia de dormir até mais tarde. Até já…
(TO BE CONTINUED)
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