Estamos aqui.

Quando entrei na sala o Luís chorava lágrimas de avalanche. Tinha na mão o resto de um lenço amarrotado incapaz de conter uma lágrima mais que fosse. Olhei-o. Ele soluçava e tive medo que não conseguisse voltar a inspirar à medida que eu me aproximava e a emoção lhe subia pela angústia do peito.

Agarrou-se a mim com a pele húmida e o rosto molhado. Sentia o seu corpo a estremecer numa dor tão contagiante que até a mim me fraquejaram as pernas. Abracei-o com força. Com a força com que se abraça um desespero e esperei que a dor lhe fluísse pelas lágrimas abaixo. Senti as suas mãos suadas e rijas que se apertavam contra as minhas costas como quem não está a medir o momento. Esperei que acalmasse mas o abraço passou o tempo normal que dura um abraço. O Luís não conseguia falar e não insisti que ele o fizesse. Já esperava o que me ele ia dizer.

“Ela morreu. Ela morreu! Não acredito que ela morreu…” dizia, enquanto baixava o tom e se deixava descair pelas pernas abaixo até se enrolar em posição de feto, no chão. Sentei-me com ele e apertei-o contra o meu peito enquanto tentava manter a postura de uma viga de ferro. Eu sabia que este dia ia chegar. E o Luís também. Mas não há nada a fazer, não há preparação possível para a morte. Vem e cumpre a sua missão.

Desejei que ninguém entrasse pelo escritório naquele momento e dei graças por ter sido eu a primeira a chegar. Os clientes que esquecessem os telefonemas e os emails. Fui reprogramar as chamadas e a mensagem automática do Outlook. Pelo caminho trouxe um copo de água e peguei no casaco de qualquer maneira. Despejei as coisas dele para dentro da minha mala e arrastei-o dali para fora, comandando-o com o braço sobre os seus ombros.

O dia não existiu durante o resto da semana. Tudo sucedeu em modo automático enquanto o Luís se ia despedindo aos poucos da tia que o havia criado naquela casa onde foram encontrá-la sem vida, naquela manhã. Agora, deitada sobre as suas costas dentro de um caixão aberto, Luís olhava-a para lá do tempo. Olhava-a persistentemente como se não houvesse mais ninguém naquela câmara, nem coroas, nem crisântemos, nem choro, lenços ou soluços. Tudo para além do rasto daquele olhar era uma névoa desbotada e incompreendida. Só Luís e a tia sabiam ler aquele momento com a cumplicidade de uma vida inteira a partilharem o mesmo caminho.

Luís nasceu de uma gravidez tardia que acabou por levar a vida à sua mãe quando ele ainda era muito pequeno. O pai, revoltado com a perda, não foi capaz de aceitar Luís naquele momento e afastou-se. Era mecânico de navios e o desejo da fuga justificada pela circunstância da revolta fê-lo aceitar uma viagem a bordo por seis anos lá para os lados da Ásia Central. Sem mãe e com o pai longe, Luís acabou por ser criado pela irmã mais velha da mãe, sua tia, que por acaso do destino nunca tinha conseguido engravidar e tinha perdido o marido na guerra das colónias. Uma história complicada de vidas cruzadas que acabaram por se unir durante mais de 30 anos.

Luís e a tia viveram e cresceram juntos. Ela era costureira e fazia rissóis para vender no café do senhor Alberto. Às vezes havia problemas pois nunca se sabia quantos homens se iam juntar em cada fim-de-semana no café para beber cerveja e comer a bucha. O stock acabava num instante. Luís, quando sabia que havia futebol ou que se aproximava uma final de damas no Sr. Alberto, avisava a tia para reforçar nas quantidades.

Com o tempo, Luís acabou também por conhecer a casa da modista e as moradas das principais clientes da tia. Quando comprou a carrinha, era ele que fazia as entregas da tia e, no regresso, fazia as compras da casa pois a tia deixou de poder carregar peso nos braços. Com o tempo a relação foi crescendo. Luís já era um homem e 30 anos tinham passado enquanto os cabelos brancos da tia se multiplicavam e a sua coluna ia definhando.

Assim passou uma vida, na amizade e na cumplicidade de uma relação destinada a fortalecer-se pela ausência de uma família tradicional. Aquela família eram dois, com laços tão apertados que a vida nunca seguiu de outra forma que não de um para o outro. A tia nunca procurou nem aceitou outro companheiro após o desgosto da carta dos serviços de informação do exército nacional.

Luís acabou por entregar-se à tia com a alma e a devoção que se costuma partilhar com os pais e irmãos. Na ausência destes, a tia era a sua família e algo que fugisse a esse seu compromisso não havia nunca de resultar. Chegou a ter namoradas, mas sempre que se falava em irem viver juntos um problema qualquer acabava por aparecer repentinamente e Luís voltava sempre à casa e ao colo que o viram nascer.

A tia envelheceu e havia já três meses que se queixava de dores nos ossos. Ouvia mal e tinha os olhos sempre em angústia por causa das cataratas que lhe tinham aparecido há uns anos e que a fizeram afastar-se da máquina de costura. Já estava velhinha e passava os dias no sofá, com uma mantinha sobre os joelhos partilhando a casa com o talk-show das manhãs na televisão. Três vezes por semana ia lá a casa uma empregada estrangeira que era massagista no seu país. Um amor de moça e adorava a pobre senhora. De vez em quando fazia-lhe um doce de leite, que era o mais fácil para engolir, e preparava-lhe uma cama com sacos de água quente para aliviar as dores nas costas. Com tal cuidado e ternura, Luís podia ficar descansado e passava os dias no escritório tranquilo entre telefonemas, emails e outras preocupações normais.

Mas naquele dia, ainda antes de começar o expediente, houve um telefone que tocou. Era cedo e Luís tinha chegado há poucos minutos. Gostava de ir cedo para ter tempo de tomar um cafezinho e ler as notícias do jornal antes do lufa-lufa começar. Ao telefone era empregada que tinha chegado a casa da tia para a sua visita habitual. A tia estava sentada no sofá, inanimada, no mesmo onde Luís a havia deixado há poucos minutos atrás, antes de ter corrido para o trabalho. Antes de sair foi à cozinha e pegou numa carcaça com a mão. No corredor agarrou as chaves e o casaco. Foi à sala, ligou a televisão e abeirou-se do sofá. “Porta-te bem, tia! E vê se não foges com nenhum apresentador mais giro do que eu, tá?”. Ajeitou-lhe a manta e ela olhou-o pelo canto do olho, riu-se e beijou-o de volta. “Até logo, filho”.

Quando deixámos o cemitério voltei a encontrar o olhar de Luís. Estava perdido entre a dor e as lágrimas. Na sofreguidão do que sentia, procurou a minha mão e apertou-ma com força. Andámos assim durante horas, sem uma palavra, um som, um gemido. Já cansados, sentámo-nos na relva e fechámos os olhos. Desceu o sol. Caiu a noite. Peguei-lhe pela mão e levei-o para minha casa. Sentámo-nos no sofá e fui buscar uma manta. Os seus dedos reviveram, apertando os meus com mais força. Luís ajeitou a manta e ficámos ali a olhar a imagem da televisão, inconscientes. Deixámo-nos dormitar até que ao longe, distante, ouvi o som de uma frase sussurrada. “Obrigado por estares aqui”.

 

Posfácio. Bem sei que este episódio tem um final insípido e pouco novelesco. Provavelmente perguntaram “então e depois?…” Mas quantas vezes a nossa vida não é, também ela, repleta de episódios normais e com finais insípidos onde não queremos mais nada senão alguém do nosso lado quando sentimos que o mundo desabou sobre os nossos ombros sem pesar a medida do que conseguimos aguentar? Sem dó nem piedade, quando a dor chega, uma simples palavra, uma silenciosa companhia ou uma simples presença podem fazer a diferença entre o desespero do momento e o alento de um futuro. Sei que é pouco, mas as minhas palavras têm um destino e um desígnio. Por muito pouco que possamos fazer, “estar aqui” pode fazer a diferença.

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