O Amor como animal de estimação

A Joana estava sempre a dizer que não percebia porque é que os peixinhos de aquário morriam sempre em sua casa. O primeiro, a quem havia chamado Charlie, até mereceu um funeral com florzinhas, tal foi o desgosto da pequena. De tal forma foi o impacto da inexistência repentina de uma vida que a Joana teve até de ser acompanhada para voltar a ter apetite e querer voltar a sair de casa para estar com as amiguinhas.

O segundo peixinho da Joana demorou a chegar pois ela não queria a nenhum custo voltar a passar por uma situação daquelas que lhe tinha roubado o sorriso e ensinado o sabor do vazio. A este chamara-lhe Goldberg e desde o momento em que entrou lá em casa que a Joana prometeu que havia de tratá-lo como se fosse o primeiro, cuidá-lo bem, dar-lhe carinho e atenção, ser rigorosa nos horários e nos cuidados de limpeza… Tudo teria de ser perfeito pois não queria que houvesse mais lugar para o abandono.

Efectivamente o Goldberg durou mais. Foi tal a preocupação que o bicho começou a reconhecer a dona, reagia aos movimentos, brincava e ficava mais agitado quando ela estava e sabia sempre as horas e os dias da comida e das limpezas.

A Joana aprendeu com o Goldberg o sentido da responsabilidade e da cumplicidade. Dedicou-se, esmerou-se e criou laços. Os cuidados tornaram-se um ritual. Mas um ritual dos bons, voluntário, que não precisava de lembretes no telemóvel nem de mnemónicas para não esquecer.

Houve um dia em que a Joana foi de férias com os pais. O drama! Quem é que iria ficar a tomar conta do pobre peixinho?! Será que se iriam lembrar de dar sempre a comida à mesma hora? E de brincar com o dedo no aquário para que o Goldberg viesse dar beijinhos? E a viagem até à casa onde ficaria o pobre coitado?… se a água se entornasse ou se ele ejoasse no caminho… Todas as preocupações assomaram a cabeça de Joana e durante todos os dias em que esteve fora com os pais não houve um em que não pensasse como estaria o seu companheiro. No regresso, foi uma alegria vê-la sorrir para o Goldberg como se fosse o bem mais precioso do Mundo.

Mas veio um dia em que Goldberg deixou de estar no aquário. Joana tinha regressado a casa e, quando se abeirou do aquário, só restavam algas e pedrinhas. De novo o vazio. De novo o silêncio. Porque decerto o peixe não teria saído de livre vontade de malas aviadas para outra freguesia. O silêncio retumbava uma ausência definitiva e o aquário voltou para o sótão, de onde Joana voltou a desejar que ele nunca tivesse saído.

Na verdade, o pequeno aquário não voltou a sair do sótão e um dia veio a tornar-se uma jarra de flores. A Vida retornou assim à pequena bola de vidro assim como também a vida de Joana seguiu em frente.

Muitos outros Charlies e Goldbergs voltaram a passar na vida de Joana tomando a forma de periquitos, hamsters, porquinhos da índia, canários, tartarugas e coelhos anões. Com a idade aumentava o tamanho e a responsabilidade, mas mantinha sempre o mesmo cuidado, sempre a mesma preocupação, sempre o mesmo amor e dedicação pelos bichos. E sempre o mesmo ciclo de um dia deixarem as suas gaiolas vazias.

Foi assim que a Joana cresceu. Hoje é adulta e lembra-se de cada um dos Charlies e Goldbergs da sua vida. Como eles, também os homens… Vinham um dia para fazer parte da sua vida. Dedicava-se a eles, entregava-se, cozinhava para eles para jantares glamorosos, limpava a casa para os receber de forma impecável, sempre que os deixava, ficava em cuidado pensando neles a cada momento, no seu bem estar e se estariam a precisar de alguma coisa. Brincava. Dava-lhes a mão e esperava que lhe beijassem a palma, com carinho, com a inocência de um jogo de criança. Criava rituais como o bom dia e o boa noite e também ela ficava mais agitada quando sabia ou sentia que eles vinham, deixando os olhos brilhar quando finalmente se reencontravam.

No Amor, como no amor. Nos homens como nos bichos. A entrega, a dedicação, a responsabilidade, a preocupação, as bincadeiras, as ausências, os rituais… Mas, como nos bichos, havia sempre um dia em que o aquário ficava vazio. E havia sempre o luto, a ausência, o vazio, a dor…

O tempo…

No Amor como no amor. Nos homens como nos bichos. Sempre um novo homem acabava por vir ocupar o seu coração. A grande lição da Joana é que não vale a pena pensar por que razão o Charlie deixou de existir. O facto é que ele deixou de lá estar e pronto. Acabou. Sem questões. Sem rancores. Sem mágoa. O lugar ficou disponível para o novo Charlie. Ainda hoje a Joana acredita que às vezes mais vale nem sequer pensar nas razões do desaparecimento ou da inexistência, mas aceitá-las como um desígnio da vida ou um fruto da irracionalidade dos animais.

Um novo Charlie ou Goldberg há-de sempre aparecer e a Joana vai continuar vai continuar a dedicar-se, a entregar-se e a cuidar deles como o primeiro porque quando não há remorsos nem mágoas, o seu aquário fica sempre disponível para receber um novo peixinho. E Amá-lo sempre como se fosse o primeiro.

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