Brincar com coisas sérias

Aposto que muitos de vós, que também andam de transportes públicos, já tiveram oportunidade de ver os cartazes da campanha sobre ejaculação precoce da Sociedade Portuguesa de Andrologia que chegaram ao Metro há uns dias.

Não?! Então eu relembro-vos. Dizem qualquer coisa como “Há homens que mal entram na estação e já chegaram ao destino” ou “Vai ser tão bom, não foi?” sobre um fundo rosado em degradé onde, no topo, um monte de espermatozoidezinhos sobem pelas palavras acima.

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Percebo e gosto da ideia de os espermatozíodes fugirem numa direcção ascendente, pois o sentido implícito de algo que aponte para cima é positivo, demonstra poder, força, vigor, expectativa e sucesso (lembrem-se da seta do PSD ou do logo da Citröen ou até o da Vodafone.. Aliás, tentem antes lembrar-se de um logotipo com inclinação para baixo…).

Não gosto da cor. Acho que a cor não “fala” com o target da mensagem, apesar de eu reconhecer que existe uma coisa chamada “ciclo de influência”. Sim, estava atenta nessa aula! Nem sempre o utilizador do produto/serviço é aquele a quem a nossa mensagem se destina. Há sempre um iniciador, um influenciador, um que decide, o que efectivamente compra/adquire e, finalmente, o que utiliza/usufrui. E raras vezes estas categorias são “a mesma pessoa”. De qualquer modo, isto não justifica que o fundo de uma mensagem sobre a ejaculação precoce se vista de cor-de-rosa. À partida, os homens não prestarão atenção à mensagem porque a cor é dos primeiros (e mais importantes) elementos causadores de sensações. E cor-de-rosa?! Ejaculação precoce?! Parece-me altamente desmotivador…

Depois a mensagem… claro que todos percebemos a ideia, mas na primeira vez, antes sequer de eu ter percebido de que se tratava, comecei por esboçar um sorriso matreiro qual “conversa de café” ou “piadinha de amigos”. Autmaticamente quando percebi de que se tratava, quem ficou cor-de-rosa fui eu de embaraço por me ter rido de tal situação. Depois todos estes pensamentos críticos me vieram à cabeça e resolvi começar a observar a reacção das pessoas. Primeiro, o sorriso maroto, depois o ar sério. Alguns nem demonstravam o sorriso e começavam logo a abanar a cabeça de um lado para o outro em jeito de indignação… “Como é que é possível brincarem com uma coisa destas?!”.

Bem, tiro o meu chapéu aos criativos desta peça única de publicidade, afinal puseram-me a mim, ao Adriano Nobre do I e a muitas das pessoas que vi no Metro a versar sobre este assunto, mas nem sempre a comunicação funciona desta maneira. Afinal, estamos todos a falar de comunicação e publicidade e não de ejaculação precoce, certo? De qualquer modo, a Sociedade Portuguesa de Andrologia conseguiu com esta campanha almejar uma maior visibilidade no mercado, resta-lhe agora potenciar esse facto transformando-a em notoriedade.

Só para concluir, as mensagens em jeito de “piada de mau gosto” ou em “tom anedótico” podem funcionar muitas vezes para criar memorização na cabeça das pessoas, mas quando se referem a temas delicados resultam muitas vezes em indignação ou na desacreditação do tema. Por isso é que a sabedoria popular não se poupa a dizer que “não se brinca com coisas sérias”. Estes temas são normalmente a saúde, o racismo, xenofobia… porque interferem com os valores da dignidade humana.

Tenho dito. Mas não sem antes dizer que o site da Sociedade Portuguesa de Andrologia é este e a ejaculação precoce é uma situação solucionável. Preferencialmente a dois, para os dois… Informem-se aqui.

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